domingo, 25 de outubro de 2015

Bisōes em Fort Providence

Territórios do Norte é um local com poucas estradas, falo de estradas onde podemos nos jogar de carro e sair por ai. Pelo seu isolamento, entre o paralelo 60 e extendendo-se acima do circulo polar ártico, esta região desperta pouco o interesse de motoristas decididos a uma road trip pelo Canadá.

Northwest Territories is a place with few roads, I mean, actually paved road. Due to its isolation, between parallel 60 and going beyond the arctic circle, this region is not the most popular for a road trip in Canada.

Ponte em Bechoko, km 100.

Yellowknife está à cerca de 1500 km ao norte de Edmonton, são 17 horas de muito asfalto e algumas distrações as vezes perigosas, como os rebanhos de bisoes.

O território teve a sua capital ligada de fato por terra ao sul em 2012, quando a ponte Deh Cho foi inaugurada em Fort Providence. Até novembro de 2012, todo o transporte rodoviário que seguia para Yellowknife passava por uma balsa (nos meses de aguas abertas) e por estrada de gelo no inverno. Foi uma obra polêmica, com orçamento estourado, atrasos e desafios por conta do clima para lá de inóspito para os coitados que trabalharam nela. 

Considerada uma das obras mais espetaculares do território, teve festa de inauguração, fogos de artifício e muito hahaha.

Yellowknife is located around 1500 km north of Edmonton, 17 hours for road, sometimes a very dangerous one.
The capital city was connected to the south properly in 2012, when the Deh Cho bridge was opened. Until that, all the road transportation coming to Yellowknife used a ferry (in open waters season) or the ice road in winter. This project was very controversial, over budget, delays and challenges due to the severe weather its workers were exposed.
Considered one of the biggest projects in NWT, its opening had fireworks and party.


Era mais ou menos assim, até 2012. Until 2012, was like that.

Algumas imagens dos 300 e poucos quilômetros entre Yellowknife e Fort Providence: Some images from the road between Yellowknife and Fort Providence.


Bechoko.

 
Parque North Arm, é um dos braços do Great Slave Lake, que banha Yellowknife. North Arm Territorial park, this is the north arm of Great Slave Lake.


Chan Lake, metade do caminho. Half way.

Um dos vários lagos secos avistados, ainda tentando descobrir o porquê. Several lakes are completely dry.


Algumas áreas afetadas pelos incêndios florestais são bem próximas à rodovia. I've seen also the forest fire areas.


Esta área foi queimada no último verão. This area was burnt last summer.



O primeiro bisão avistado. First bison.

A famosa Deh Cho Bridge. The famous bridge.

Deh Cho é o nome do rio Mackenzie na língua Dene, e significa Rio Grande. Deh Cho means Big River in dene language.


 Algumas vistas da ponte que corta o rio Mackenzie.



Deste lado o céu anunciava neve.

A ponte tem um desenho bem interessante. The bridge has an interesting curve appeal.


Fiquei imaginando os peões que torceram estes parafusos, com temperatura de menos 40... I couldn't help myself thinking about the brave guys who assembled this in minus 40...

 Primeiro mata burro que vi por aqui :-) sobrevivi a ele!

O outono já estava no auge em 28 de setembro! It's all fall, in September 28!!!

 Vista da ponte, do rio e suas barrancas expondo a falta de água. The bridge, the river, its banks showing the lack of water.

Vista do rio Mackenzie em Fort Providence. Mackenzie river in fort Providence.




Um dos poucos pontos para um lanche, em Fort Providence. One of the few spots to grab a bite there.




Capela em Fort Providence. Chapel, Our Lady of Providence.


A escola local.

O povo parece religioso, dois prédios para a mesma igreja. The second Our Lady of Providence Chapel, such religious people there?

Esse é o  rei da estrada por aqui. Animal imenso, lindo, bovino. The road's king.


 

Esse parecia desfilar. This one seems to be in a runaway.


Esta é a paisagem predominante da estrada, longas retas, tediosas e perigosas. This is how the road goes, long and straight, boring and dangerous.



Mas de todo o jeito a  estrada revela uma paisagem linda, digna de uma road trip ou um road movie. Algum dia!
 Anyways, the road reveals its beauty, for a road trip or a road movie. Someday!








Territórios do Norte além de Yellowknife - Os cachorros de Lutsel K'e

Territórios do Norte é um extenso terreno, um pouco menor que o estado de Québec, porém com pouco mais de 40 mil habitantes.

A capital Yellowknife, com cerca de 20 mil habitantes (e umas 50 mil pickups e SUV) parece uma bolha de urbanização perdida no final da Autoestrada número 3.

Northwest Territories is a huge terrain, a little smaller than Quebec, with only 40,000 people live in.

The Capital city yellowknife, with almost 20,000 habitants (and around 50,000 trucks and SUV), seems like an urban hub lost in the end of the Highway 3.


O centro de Yellowknife, densamente ocupado.

Os cachorros de Lutsel K'e

Tenho tido sorte de poder conhecer outros recantos mais isolados do estado, visitando comunidades apenas acessíveis por terra durante o inverno através das estradas de inverno, ou estradas de gelo. Fora desta curta temporada (com as mudanças climáticas estas estradas de inverno estão abertas por cada vez menos dias), o acesso dá-se por aviões ou lanchas.

Lutsel K'e's dogs

I'm very lucky to be able to know the small and isolated places in the territory, visiting communities there are only accessible by road during the winter through winter roads, or ice roads. Out of this short winter season ( climate change is turning the ice road season shorter every year), the only way to reach these places is by plane or boat.

Air Tindi Hangar

A aventura já começa no aeroporto, viajando em um bimotor barulhento, sem banheiro e sem formalidades. O uso do celular esta liberado!

A primeira comunidade que visitei  chama-se Lutsel K'e, terra do povo Lutsel'Ke Dene, o vilarejo tem cerca de 300 pessoas muito orgulhosas de sua origem e que lutam para manter antigas tradições.

The adventure starts in the hanger, travelling in a  noisy twin otter, with no toilets nor formalities. The use os electronic devices is free!

The first community I've visited was Lutsel K'e, land of Lutsel K'e Dene First nation, where around 300 people live and trying to keep their culture and traditions.

Logo ali, depois de 40 minutos de vôo de Yellowknife chegamos a Lutsel K'e. 

After 40 minutes flight we've arrived at Lutsel K'e


 Aqui não adianta muito ser o bilingue padrão do Canada, francês não tem vez!
French doesn't help  a lot here.

O caminho do aeroporto até o povoado foi feito a pé, podendo observar os detalhes do lugar, como o lodge do outro lado do lago. O nome do povoado vem do nome de um peixe (lutsel), como não poderia ser diferente, pescadores ali encontram fartura em peixes e os locais sabem muito bem como prepará-lo.

From the airport to the community a nice walk that shows me some of the most amazing landscapes, and one of its lodges. The name Lutsel K'e came from the name of a small fish (lutsel), here fishermen could find plenty of fish, and the locals really know how to prepare it.

 Este é literalmente caminho para lugar algum, a estrada termina um pouco adiante.

Literally, a road to nowhere.


Muitos cachorros correndo soltos pela rua, me fez lembrar do Cassino.

The bunch of dogs running free reminded me Cassino (a place in southern Brasil full of straight dogs.


Os cachorros estão por todo o lugar e são super simpáticos.


Até se disfarçam de ovelha.

Mas o mais legal foi observar um dos lugares mais isolados pelos quais já passei, e ver o quanto ainda tenho a percorrer.

domingo, 13 de setembro de 2015

Coisas de Yellowknife - casas barco

Em uma cidade que nasceu em uma pontinha de terra metida no Great Slave Lake (GSL), Yellowknife sempre teve uma relação muito próxima com suas águas. No começo da "invasão branca", aventureiros atrás do ouro do norte aqui chegaram através de hidroaviões ou barcaças quando o lago abria suas águas no verão.

Decolando em 3, 2, 1.

Tem uma turma que permanece conectada com as águas e com a natureza. São os 35 felizes proprietários de casas barco. Este tipo de moradia popularizou-se no final da década de 70 inicio dos 80, sendo que os pioneiros eram artistas em busca de um studio ideal.

Estas casas tem um custo médio de 50 mil dólares, no estilo faça você mesmo. Para comprar uma, desembolsamos uns 240 mil, cheguei a cogitar ao ver um anúncio de venda. Não existe financiamento para este tipo de habitação, porém não se paga imposto algum. A contrapartida é a autonomia: água, esgoto, energia, tudo está nas mãos do morador...trabalho em tempo integral!


É praticamente um bairro, uma comunidade super unida e criativa, muitos dos seus moradores são artistas, pessoas que não tem a obrigação de chegar no escritório às 8 e sair às 5, afinal, nem sempre a maré favorece.


Uma das mais bonitas, parece casa da Vó.


Elas são normalmente ancoradas em quatro pontos, e preferencialmente "escondidas" atrás de alguma ilha para evitar os fortes ventos e correntes.

Esta tem até quintal.



Algumas com estilo mais moderno.

No inverno sair de casa fica teoricamente mais fácil.



No inverno também é quanto se traz o carro para a garagem. Este carro está em uma das pequenas ilhas, esperando o inverno chegar.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Reminiscências do verão


O verão em Yellowknife é curto, começa na segunda semana de junho e acaba dois meses depois. Neste curtíssimo período, nossas águas são liquidas, e delas podemos desfrutar um pouco além da superfície dura e branca do longo inverno.
Toda esta "liquidez", me fez lembrar de como, sempre estou nas voltas com águas e barcos.
Não tem calmante melhor do que observar uma lagoa.

Por longos períodos da minha vida morava perto de algum curso d'água: cresci na beira do rio Taquari, em Estrela. Quando no interior de Sao Paulo, minha pequena cidade era conhecida por sua bela represa. Porto Alegre com o o Guaíba lindo e maltratado foi minha residência por uns 9 anos. Ainda teve Recife e seus mares lindos e imundos, além de Pelotas e as praias de água doce da Lagoa dos Patos.

rio Taquari

praia do Laranjal - Pelotas

Para me enredar ainda mais neste mundo naval, trabalhei por dois anos em um estaleiro, na beira do canal de Rio Grande, construindo um enorme navio-plataforma. No meio de tanto aço e aridez, a vista do canal navegável era uma poesia nos duros e longos dias de trabalho.
Canal de Rio Grande, um uma fria madrugada de inverno.

Ao mudar para o Canada, encontrei em Montreal o belo e imponente rio Sao Lourenço, um pouco desdenhado pela cidade que não o valoriza à sua altura (comparado com os "water fronts da America do Norte), às vezes se disfarça de mar, possibilitando aos surfistas urbanos usufruírem de suas ondas correntes.


Rio São Lourenço, na altura do parque das corredeiras

 E em Yellowknife, o supra sumo dos lagos canadenses. A quantidade de lagos neste pedaço do pais é imensa, de pequenos lagos perenes ao Great Slave Lake e  ao Great Bear Lake, que pelos nomes indicam,  mais parecem mares.


Yellowknife bay, que é um pedacinho do Great Slave Lake. 

Um pouquinho da cidade espia o lago.

Ao primeiro sinal de liquidez de suas aguas, surgiram um sem numero de barcos, lanchas, canoas, caiaques, velas que colorem as tardes que não tem fim. 

 Velas...

Caiaques

Mais velas.

Passeio inaugural (para mim!).



 No auge do verão tropical de Yellowknife, andar de caiaque foi a extrema experiência.  Uma felicidade tao grande por estar dentro deste lago, estas aguas limpas e azuis, passar ao lado de patos, peixes e aviões. 

Entrando na pista de pouso.

Após quatro horas de remadas em águas calmas, em trechos de correnteza e ondas, desviar de lanchas e aviões,  deu uma vontade de comprar caiaque, canoa, SUP e ir morar em uma house boat. Sim, temos casas-barco aqui...coisas de Yellowknife, na seqüência.




domingo, 21 de junho de 2015

Solstício ou o gnac do Marcovaldo

Algo muito interessante da vida no Canadá é a possibilidade de observar e viver o ambiente, as mudanças de temperatura, a cor das folhas das árvores, a migração dos pássaros e as diferenças nada sutis entre as  estações do ano.

Aqui, nao conseguimos ficar imunes à tanta natureza, aos incontáveis lagos, aos animais que povoavam nossa infância tropical pelos desenhos animados. Não imagino qual será minha reação quando me deparar com um urso: serei uma urbanóide  histérica? ou uma kamikaze que sairá correndo para abraçar o Zé Colméia??

Por enquanto, minhas aventuras no norte gelado estão mais contidas, e minhas observações bem protegidas pela altura do prédio onde moro.

Da janela de casa, só observo...

Da janela do apartamento em março.

 Em março, outra vista.
Em junho, detalhe da sombra "andante" do prédio.

Há aproximadamente dois meses, os dias começaram a alongar-se, uma alegria instantânea por sair do trabalho com um sol brilhando no nosso rosto, as bicicletas multiplicando-se a cada dia pelas ruas, as folhas das árvores brotando. Bem, as folhas parecem que explodem, pois em menos de uma semana o que era um galho seco, torna-se uma copa verde. Os pássaros voltam do sul e  acabaram com a monopolização dos corvos, tudo ficou menos lúgubre. A euforia não persistiu, resultado de noites insones e manhãs sonolentas. 

O sol da meia noite em Yellowknife.


Como acontece com Marcovaldo e o infame gnac, as noites foram ficando iluminadas, mas diferente do meu personagem favorito cujas noites duravam 20 segundos (capitulo 14 -verāo) minhas noites foram embora, o meu gnac não apaga após 20 segundos. 
- Onde estarão as estrelas? A que horas os pássaros dormem? Como os vampiros sobrevivem? 

Perguntas que tiram meu sono nestes dias que não acabam, ou melhor, que não apagam.



As duas e trinta da manhã, ouvindo os sabiás, pelo menos descobri a hora que eles acordam.

Felizmente hoje é o dia mais longo do ano, solstício, inicio do verão no hemisfério norte. Os dias voltarão a ter noites, eu voltarei a admirar as estrelas, e meu gnac irá eventualmente apagar-se! 
Triste pelos sabiás que migrarão para o sul, esperta pelos vampiros que circularão pela noite escura.

Mais sobre gnac ou Marcovaldo neste livro, capitulo 14 -  a Lua e o gnac, coincidentemente o capitulo relata o verão.




domingo, 7 de junho de 2015

Pequenas alegrias diárias

Estar em um lugar tão isolado, com extremos geográficos que pareciam tão distantes da minha vida, em alguns momentos carrega a saudade de lugares e pessoas queridas. Para amenizar, encontro em pequenas alegrias diárias, distração e contentamento.

Morar a dez minutos de caminhada do escritório, é um luxo que jamais tive. Para completar, meu escritório tem o melhor café da cidade, cafe orgânico e "fair trade" extraído nesta maquininha:



Falando em coisas matinais, tem algo mais incrível que tomar café da manhã ouvindo sabiás? Sim, temos sabiás em Yellowknife, quase chorei quando ouvi os primeiros cantos do meu pássaro favorito. Pensei que estava na Redenção.

Encontre o sabiá na foto.


Falando em coisas gaúchas, encontrar cuia para vender...e no modelo brasileiro? Nem em Montreal temos cuias gaúchas para vender, quando muito os modelos uruguaios/argentinos. Mas aqui não, temos a legítima cuia gaudéria. As caixinhas são de cha mate, não encontrei erva mate (ainda).

Seriam as  castelhanas as mais populares?

Falando em castelhano,  outro dia de extrema emoção, foi quando encontrei um livro de um dos meus autores favoritos, o cubano-italiano Italo Calvino, detalhe: em português e um dos qua não havia lido ainda  :-)

Emoções literarias, fazendo companhia para o Marcovaldo.

Estar em um lugar com tantos lagos traz paz e possibilidades, outra pequena (às vezes grande) alegria diária. A temporada de esportes aquáticos está aberta, aproveite enquanto o gelo não volta.

Caiaques, canoas, pequenos navegantes.


O extremo da experiência de viver em Yellowknife, morar em uma casa-barco totalmente autônoma. Por enquanto me contento em vê-las da margem, eu e as gaivotas. 


A paisagem horizontal inicial.

A alegria diária antes do sono, alimenta meus sonhos. A vista daqui de casa, esperando o solstício.

 6 de junho, 11 da noite.

 Dia 6 de junho, entre 11 da noite e meia noite e meia, um espetáculo de cores no céu. Em um momento parecia haver dois sóis, alegrias horizontais.

Uma aurora boreal de verão?


 Poderia ser um temporal..

E o sol parece que jamais se  esconderá, ele tornou-se meu GNAC que me distrai do sono.