domingo, 13 de setembro de 2015

Coisas de Yellowknife - casas barco

Em uma cidade que nasceu em uma pontinha de terra metida no Great Slave Lake (GSL), Yellowknife sempre teve uma relação muito próxima com suas águas. No começo da "invasão branca", aventureiros atrás do ouro do norte aqui chegaram através de hidroaviões ou barcaças quando o lago abria suas águas no verão.

Decolando em 3, 2, 1.

Tem uma turma que permanece conectada com as águas e com a natureza. São os 35 felizes proprietários de casas barco. Este tipo de moradia popularizou-se no final da década de 70 inicio dos 80, sendo que os pioneiros eram artistas em busca de um studio ideal.

Estas casas tem um custo médio de 50 mil dólares, no estilo faça você mesmo. Para comprar uma, desembolsamos uns 240 mil, cheguei a cogitar ao ver um anúncio de venda. Não existe financiamento para este tipo de habitação, porém não se paga imposto algum. A contrapartida é a autonomia: água, esgoto, energia, tudo está nas mãos do morador...trabalho em tempo integral!


É praticamente um bairro, uma comunidade super unida e criativa, muitos dos seus moradores são artistas, pessoas que não tem a obrigação de chegar no escritório às 8 e sair às 5, afinal, nem sempre a maré favorece.


Uma das mais bonitas, parece casa da Vó.


Elas são normalmente ancoradas em quatro pontos, e preferencialmente "escondidas" atrás de alguma ilha para evitar os fortes ventos e correntes.

Esta tem até quintal.



Algumas com estilo mais moderno.

No inverno sair de casa fica teoricamente mais fácil.



No inverno também é quanto se traz o carro para a garagem. Este carro está em uma das pequenas ilhas, esperando o inverno chegar.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Reminiscências do verão


O verão em Yellowknife é curto, começa na segunda semana de junho e acaba dois meses depois. Neste curtíssimo período, nossas águas são liquidas, e delas podemos desfrutar um pouco além da superfície dura e branca do longo inverno.
Toda esta "liquidez", me fez lembrar de como, sempre estou nas voltas com águas e barcos.
Não tem calmante melhor do que observar uma lagoa.

Por longos períodos da minha vida morava perto de algum curso d'água: cresci na beira do rio Taquari, em Estrela. Quando no interior de Sao Paulo, minha pequena cidade era conhecida por sua bela represa. Porto Alegre com o o Guaíba lindo e maltratado foi minha residência por uns 9 anos. Ainda teve Recife e seus mares lindos e imundos, além de Pelotas e as praias de água doce da Lagoa dos Patos.

rio Taquari

praia do Laranjal - Pelotas

Para me enredar ainda mais neste mundo naval, trabalhei por dois anos em um estaleiro, na beira do canal de Rio Grande, construindo um enorme navio-plataforma. No meio de tanto aço e aridez, a vista do canal navegável era uma poesia nos duros e longos dias de trabalho.
Canal de Rio Grande, um uma fria madrugada de inverno.

Ao mudar para o Canada, encontrei em Montreal o belo e imponente rio Sao Lourenço, um pouco desdenhado pela cidade que não o valoriza à sua altura (comparado com os "water fronts da America do Norte), às vezes se disfarça de mar, possibilitando aos surfistas urbanos usufruírem de suas ondas correntes.


Rio São Lourenço, na altura do parque das corredeiras

 E em Yellowknife, o supra sumo dos lagos canadenses. A quantidade de lagos neste pedaço do pais é imensa, de pequenos lagos perenes ao Great Slave Lake e  ao Great Bear Lake, que pelos nomes indicam,  mais parecem mares.


Yellowknife bay, que é um pedacinho do Great Slave Lake. 

Um pouquinho da cidade espia o lago.

Ao primeiro sinal de liquidez de suas aguas, surgiram um sem numero de barcos, lanchas, canoas, caiaques, velas que colorem as tardes que não tem fim. 

 Velas...

Caiaques

Mais velas.

Passeio inaugural (para mim!).



 No auge do verão tropical de Yellowknife, andar de caiaque foi a extrema experiência.  Uma felicidade tao grande por estar dentro deste lago, estas aguas limpas e azuis, passar ao lado de patos, peixes e aviões. 

Entrando na pista de pouso.

Após quatro horas de remadas em águas calmas, em trechos de correnteza e ondas, desviar de lanchas e aviões,  deu uma vontade de comprar caiaque, canoa, SUP e ir morar em uma house boat. Sim, temos casas-barco aqui...coisas de Yellowknife, na seqüência.




domingo, 21 de junho de 2015

Solstício ou o gnac do Marcovaldo

Algo muito interessante da vida no Canadá é a possibilidade de observar e viver o ambiente, as mudanças de temperatura, a cor das folhas das árvores, a migração dos pássaros e as diferenças nada sutis entre as  estações do ano.

Aqui, nao conseguimos ficar imunes à tanta natureza, aos incontáveis lagos, aos animais que povoavam nossa infância tropical pelos desenhos animados. Não imagino qual será minha reação quando me deparar com um urso: serei uma urbanóide  histérica? ou uma kamikaze que sairá correndo para abraçar o Zé Colméia??

Por enquanto, minhas aventuras no norte gelado estão mais contidas, e minhas observações bem protegidas pela altura do prédio onde moro.

Da janela de casa, só observo...

Da janela do apartamento em março.

 Em março, outra vista.
Em junho, detalhe da sombra "andante" do prédio.

Há aproximadamente dois meses, os dias começaram a alongar-se, uma alegria instantânea por sair do trabalho com um sol brilhando no nosso rosto, as bicicletas multiplicando-se a cada dia pelas ruas, as folhas das árvores brotando. Bem, as folhas parecem que explodem, pois em menos de uma semana o que era um galho seco, torna-se uma copa verde. Os pássaros voltam do sul e  acabaram com a monopolização dos corvos, tudo ficou menos lúgubre. A euforia não persistiu, resultado de noites insones e manhãs sonolentas. 

O sol da meia noite em Yellowknife.


Como acontece com Marcovaldo e o infame gnac, as noites foram ficando iluminadas, mas diferente do meu personagem favorito cujas noites duravam 20 segundos (capitulo 14 -verāo) minhas noites foram embora, o meu gnac não apaga após 20 segundos. 
- Onde estarão as estrelas? A que horas os pássaros dormem? Como os vampiros sobrevivem? 

Perguntas que tiram meu sono nestes dias que não acabam, ou melhor, que não apagam.



As duas e trinta da manhã, ouvindo os sabiás, pelo menos descobri a hora que eles acordam.

Felizmente hoje é o dia mais longo do ano, solstício, inicio do verão no hemisfério norte. Os dias voltarão a ter noites, eu voltarei a admirar as estrelas, e meu gnac irá eventualmente apagar-se! 
Triste pelos sabiás que migrarão para o sul, esperta pelos vampiros que circularão pela noite escura.

Mais sobre gnac ou Marcovaldo neste livro, capitulo 14 -  a Lua e o gnac, coincidentemente o capitulo relata o verão.




domingo, 7 de junho de 2015

Pequenas alegrias diárias

Estar em um lugar tão isolado, com extremos geográficos que pareciam tão distantes da minha vida, em alguns momentos carrega a saudade de lugares e pessoas queridas. Para amenizar, encontro em pequenas alegrias diárias, distração e contentamento.

Morar a dez minutos de caminhada do escritório, é um luxo que jamais tive. Para completar, meu escritório tem o melhor café da cidade, cafe orgânico e "fair trade" extraído nesta maquininha:



Falando em coisas matinais, tem algo mais incrível que tomar café da manhã ouvindo sabiás? Sim, temos sabiás em Yellowknife, quase chorei quando ouvi os primeiros cantos do meu pássaro favorito. Pensei que estava na Redenção.

Encontre o sabiá na foto.


Falando em coisas gaúchas, encontrar cuia para vender...e no modelo brasileiro? Nem em Montreal temos cuias gaúchas para vender, quando muito os modelos uruguaios/argentinos. Mas aqui não, temos a legítima cuia gaudéria. As caixinhas são de cha mate, não encontrei erva mate (ainda).

Seriam as  castelhanas as mais populares?

Falando em castelhano,  outro dia de extrema emoção, foi quando encontrei um livro de um dos meus autores favoritos, o cubano-italiano Italo Calvino, detalhe: em português e um dos qua não havia lido ainda  :-)

Emoções literarias, fazendo companhia para o Marcovaldo.

Estar em um lugar com tantos lagos traz paz e possibilidades, outra pequena (às vezes grande) alegria diária. A temporada de esportes aquáticos está aberta, aproveite enquanto o gelo não volta.

Caiaques, canoas, pequenos navegantes.


O extremo da experiência de viver em Yellowknife, morar em uma casa-barco totalmente autônoma. Por enquanto me contento em vê-las da margem, eu e as gaivotas. 


A paisagem horizontal inicial.

A alegria diária antes do sono, alimenta meus sonhos. A vista daqui de casa, esperando o solstício.

 6 de junho, 11 da noite.

 Dia 6 de junho, entre 11 da noite e meia noite e meia, um espetáculo de cores no céu. Em um momento parecia haver dois sóis, alegrias horizontais.

Uma aurora boreal de verão?


 Poderia ser um temporal..

E o sol parece que jamais se  esconderá, ele tornou-se meu GNAC que me distrai do sono.

                                                                                


domingo, 31 de maio de 2015

Pedras e Rochas.

Pedras, rochas, pedreiras, minas, ouro, diamante, arsenico e mais pedras.

Do topo da pedra, ao fundo a direita Old Town.

O povoamento surgiu pelo interesse dos minerais locais. Os blocos de rochas brotam pela cidade, no lugar de grama, pedras.

Mesas de piquenique ao lado do QG da Policia Montada.

As pedras funcionam como um jardim.

Jardim do predio The Point, Centro.

Fazem uma bela base para a arte local.

Monumento do povos, Old Town.

Servem de moldura para nossas fotos.


Base solida para as residências.

 Uma casa, Old Town.
Outra casa, Lathan Island.

As mesmas pedras que trouxeram o ouro, hoje ajudam a guardar o arsenico residual.
 Estruturas no fundo, Giant Mine, maior concentração de resíduo de arsênico do mundo.

Mas seu melhor papel é servir de maravilhoso comparativo entre os reinos mineral, vegetal e animal.
Do alto da minha pedra favorita, vista do Grand Slave Lake.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Paisagens horizontais - do paralelo 30 S ao 60 N







Yellowknife, Territórios do Norte, Canadá.




Banhado do Taim - Pampa litorâneo, Rio Grande do Sul, Brasil

As horizontalidades da paisagem e a característica de frio "extremo" unem estes dois pontos geográficos. Fã da música de Vitor Ramil, Jorge Drexler e dos demais músicos que promovem a estética do frio, foi difícil não comparar o pampa do meu coração, com este lugar. Não que tenhamos aqui as planícies típicas do pampa, mas o céu fincado no chão me "joga" de volta ao sul do paralelo 30. Para consolar,  algumas colinas no horizonte e cuias para vender na farmácia.  A estética do frio daqui, entretanto, difere muito pois o frio é extremo. Impõe atitudes extremas pela simples sobrevivência.

Hoje completa-se três meses que aqui baixei minha âncora, até encontrar outros ventos. Uma proposta de trabalho me trouxe para o norte gelado, terra da aurora boreal, do caribou (quase uma rena), dos povos aborígenes: metis, denes e inuits.
Yellowknife, que literalmente significa faca amarela, é uma pequena cidade, cerca de 20 mil habitantes, capital deste território, rico em recursos naturais, em cultura aborígene e em diversidade cultural. Aqui habitam filipinos, latinos (mexicanos, cubanos), chineses, canadenses da costa leste e quatro brasileiros (pela minha última contabilidade).  



Um dos muitos pôr de sóis que tenho presenciado. 

Nos primeiros tempos o frio, este amigo invisível, cortava as carnes, temperatura em menos 20, sensação de menos 35. Muito gelo, pouca neve, poucas árvores, em uma área que depois descobri ser uma das mais áridas do Canadá.


Beira do Grand Slave Lake em março.


Beira do Grand Slave Lake em Maio.

Por sorte a Terra ainda nos brinda com sua rotação e as estações,  trazendo calor e a fluidez das águas. O lago  nos convida a um mergulho impossível neste momento devido à sua temperatura, ainda promovedora de hipotermia.

A aurora boreal nos brinda com espetáculos noturnos inesperados, ainda não presenciei muitas, mas o outono volta trazendo estas luzes iluminando o céu gelado das noites do norte. Noites estas a cada dia mais curtas, em pouco mais de um mês teremos o sol da meia noite.

Yellowknife, 18 de maio, 00:01.